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Túnel chega a mineiros presos no Chile

“Éramos como crianças com doces”, disse ontem um dos mineiros quando as brocas romperam no teto do refúgio onde 33 operários estão presos há 66 dias no Chile. Às 8h05, quando começaram a cair pedaços de rocha, os homens gritaram e choraram de alegria. De cima, a equipe de resgate acompanhava em vídeo as reações. No Campo Esperança, onde estão 2 mil pessoas, uma sirene tocou mais de uma hora. O sino da escolinha também.
Agora, o resgate dos 33 mineiros presos a 688 metros de profundidade entra na fase final e mais arriscada. Nesta etapa, os mineiros terão de ajudar em seu próprio salvamento. Primeiro, limparão os fragmentos que caíram no refúgio durante a perfuração. Depois, dinamitarão a saída do túnel para garantir que a cápsula Fênix, usada para içá-los à superfície, não fique entalada. “Eles são mineiros, são acostumados a lidar com explosivos, não há problemas”, disse Laurence Golborne, o ministro da Mineração.
O governo prevê que o resgate comece a partir de amanhã à noite. A grande aposta, porém, é que o salvamento comece na terça-feira, quando chega à mina o presidente Sebastián Piñera. A operação tem aumentado a popularidade do dirigente chileno. “O que começou como uma tragédia, está terminando como bênção. Este é o momento pelo qual estamos esperando há muito tempo”, disse Piñera.
Tudo dependerá agora de quantos metros do túnel os técnicos revestirão de aço: quanto mais revestimento, mais demorará para o início do salvamento. Logo após o fim da perfuração, Matt Stafeard, um americano operador da máquina Schramm T-130, foi abraçado por vários dos parentes dos operários. “Este é o trabalho mais difícil que tive na vida. Normalmente, perfuro para tirar coisas da terra, não pessoas”, disse Stafeard ao Estado. Ele acaba de voltar do Afeganistão, onde escavava poços de água para os soldados americanos.
“Vimos pela câmera que o túnel está em boas condições, acho que só será necessário revestir de aço os primeiros 100 metros”, disse James Stefanic, coordenador da Geotec, empresa responsável pela perfuração no chamado Plano B.
Até agora, a tecnologia foi um dos destaques da operação de salvamento e orgulho do Chile, já que muitos dos equipamentos, como a cápsula Fênix e o telefone usado pelos mineiros, foram criados no país. Como disse Clint Cragg, engenheiro da Nasa que esteve na região em setembro: “Os chilenos estão escrevendo o manual para esse tipo de resgate. Nunca houve tantas pessoas nessa profundidade por um período de tempo tão longo.”
Com muitas inovações, conseguiram manter os 33 mineiros – entre eles um idoso com problemas pulmonares e um diabético – relativamente saudáveis e mentalmente sãos, mesmo isolados. O engenheiro Raul Burger, dono da Burger, empresa responsável pelo revestimento, explicou que um dos desafios no Plano B, o túnel escavado pela Schramm T-130, é que o trajeto não é reto.
O grupo está preso há 64 dias sob uma temperatura mínima de 32 graus e pouca iluminação, fornecida por uma lâmpada de 500 watts baixada por um duto. Muitos têm problemas dentários, dermatológicos e psicológicos.

Estadão

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